De regresso a casa

O rugido do urso

Quando apontava a sua objectiva para a enferrujada carcaça de uma das carruagens, Cordeiro voltou o seu olhar para duas pequenas figuras que surgiam por entre os carris. Quando a Natureza conquista um espaço aos humanos, outros seres vêm no seu seguimento. Sem o medo que a presença humana lhes causava, aquelas duas lebres irromperam por entre a estação. A vegetação podia estar a destruir as ruínas, mas as duas roedoras agradeciam a sua presença.

@ Paula Costa

O fotojornalista não hesitava em seguir as duas pequenas criaturas com a sua objectiva. Haveria outras espécies a vaguear por aquelas paragens? Cordeiro não quis esperar pela resposta. Aos 55 anos de idade, já não esperava pelas sugestões de ninguém.  Com a curiosidade que marcara toda a sua carreira, agarrou na sua Nikon e correu pelos carris a fora. O silêncio manteve-se durante os primeiros passos. À partida, mais nenhum animal além daquelas duas lebres se arriscara a explorar a antiga estação, até um vulto castanho surgir pela frente. Agora que a vegetação percorria todo o território transmontano, um urso ibérico decidira vaguear para fora da Galiza e descera até ao Vale do Tua. Estaria à procura de comida? Talvez buscasse alguma das lebres que vimos ou algumas da trutas do rio Tua.

Estaria Cordeiro maravilhado ou aterrorizado? Talvez sentisse as duas coisas. A sua objectiva foi imediatamente apontada para o corpulento carnívoro à sua frente. Talvez o seu entusiamo o tenho feito esquecer o quão os ursos são animais solitários. O recém-chegado não era uma excepção e a forma como olhou directamente para o fotógrafo não deixou dúvidas. Cordeiro percebeu o que estava prestes a acontecer. A sua câmera desceu rapidamente da frente da sua face ao mesmo tempo que se voltava para fugir. Já passara demasiado tempo naquelas terras. Enquanto ouvia os rugidos do urso e as suas patas nos carris, Cordeiro apenas pensava em chegar ao jipe o mais rapidamente possível. Infelizmente, naquela hora, a idade tornou-se na sua principal inimiga.

A pressa em alcançar o jipe era tanta que nem reparei que ele não me conseguira acompanhar. Voltei-me à sua procura e chamei por ele. No entanto, a única coisa que pude fazer foi olhar enquanto o meu colega era derrubado pelo urso. Ainda me lembro de o ver a cair, sem qualquer grito. Será que ele viu naquele momento de terror uma oportunidade para “morrer junto ao Tua”, como tantas vezes havia dito que queria? Seria esta tragédia uma metáfora para o Interior “devorado” pelo Litoral? Não sei responder a nenhuma dessas perguntas. Apenas sei que hoje será um dia de luto para o Diário do Douro. Que fazer com as fotografias que a direcção tanto queria? Afinal, a máquina ficara no Tua com o fotógrafo! Talvez algum artista plástico consiga uma aproximação baseada nos meus relatos. Mas neste momento, não quero pensar nisso.

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