De regresso a casa

Cordeiro acabava de parar ao lado dos carris. A sua mão aproximava-se do manípulo da porta, mas a incerteza levava-o a hesitar. Nunca havia visitado a estação do Tua, apenas a conhecendo das histórias contadas pelos seus avós. Este tripeiro com raízes transmontanas sabia que não ia encontrar a imagem das histórias da sua infância, mas a directora do Diário do Douro tinha dado ordens explícitas: “quero as tuas fotos na reportagem”.

O dever obrigou-o agarrar na sua Nikon enquanto se afastava do seu jipe. O fotógrafo caminhava pelos carris onde um século antes passara o comboio que ligava aquelas terras ao Litoral. Agora, apenas as ervas daninhas e os arbustos atravessavam aquela estação. Aquele era um retrato de todo o interior.

O Homem parte e a Natureza volta

Na segunda metade do século XIX, a população tinha começado a fugir para o Litoral. Os governos iam passando e cada executivo que entrava achava dava ainda menos importância ao Interior. As ligações ferroviárias foram encerradas. Os serviços públicos fecharam: primeiro as escolas e depois os hospitais. Com a fraca reputação da “província”, as empresas deixaram de investir, levando os mais jovens a partir para o Litoral, sobretudo para Lisboa. Apenas os mais velhos ficaram e quando estes também partiram, não ficou mais ninguém.

@ Paula Costa

Quando o Homem se foi embora, a Natureza reclamou aquilo que outrora fora seu. Em todo o Interior, de Bragança até Alcoutim, a vegetação irrompia pelos edifícios adentro. Paredes e soalhos não eram uma barreira para as suas raízes. Se tivesse de os quebrar, a deusa Gaia não hesitava. A estação do Tua apresentava a mesma imagem. Cordeiro tentava conter as lágrimas, sabendo que o seu dever era fotografar aquilo que via.

Enquanto avança em direcção ao edifício da bilheteira, as memórias das histórias da sua infância iam regressando. “Foi daqui que os meus bisavós partiram para o Porto”, afirmava Cordeiro. O encerramento da linha do Douro para além da Régua chegaria no ano seguinte. A família Cordeiro nunca mais voltaria à sua terra natal, ficando apenas as histórias das suas infâncias. Com apenas dez anos, o avô de Cordeiro mal sabia que acabaria por se apaixonar por uma conterrânea sua. Podiam tentar fugir de Carrazeda, mas Carrazeda continuava a correr atrás deles, sendo na Invicta que os dois transmontanos se encontraram. Um século depois, o seu neto fizera o caminho inverso. Contudo, o fotógrafo estava decepcionado com o que encontrara. Nas palavras de Cordeiro, a Trás-os-Montes das histórias do seu avô “parecia um paraíso, o lugar onde eu gostaria de viver e morrer”. No entanto, o fotojornalista encontrava uma terra que “já estava morta há muito anos”.

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