Beatriz e os seus filhotes: a “Metamorfose dos Pássaros” de Catarina Vasconcelos

De onde veio o nome?

Terá a realizadora encontrado toda a informação que procurava sobre a sua avó nas cartas e nas conversas com os seus familiares? Talvez não, mas a primeira longa-metragem de Catarina tem tanto de documentário como de ficção. A realizadora foi buscar parte da sua inspiração à sabedoria popular. Noutros tempos, alguns anciãos não compreendiam para onde iam alguns pássaros na Primavera ou de de vinham no Inverno. Nem sequer sabiam o porquê destas aves não se encontrarem. Sem saberem, resolveram inventar uma resposta: se estas diferentes espécies não se encontram, é porque são os mesmo pássaros, como se tivessem sofrido uma metamorfose.
Quando não sabia o que tinha acontecido na vida da sua avó, Catarina fazia o mesmo que os antigos: inventava uma resposta.

@ D.R.

Enquanto continuava a procurar a sua avó, Catarina descobriu “a profunda e próxima relação” de Beatriz “com a natureza”, ao ponto de chamar João, um dos seus meninos mais novos, de “passarinho”. Da mesma forma que “fazia crescer as suas plantas”, a avó da cineasta assegurava o crescimento dos seus filhos. Foi perante esta transformação dos filhotes de Beatriz em adultos que Catarina escolheu o título do filme.

“Não sei se aconteceu como no filme, mas se calhar…”

Mas como será que esses mesmos filhotes reagiram ao filme sobre a sua mãe? Embora “tenham gostado da ideia”, a família Vasconcelos estranhou um pouco. “Como vais contar uma história sobre a nossa mãe se tu não a conheceste?”, perguntavam os tios de Catarina. As maiores reticências vinham do filho mais velho, Jacinto. O pai da realizadora chegou ao ponto de não querer que a filha lesse as cartas trocadas por Beatriz e Henrique. Para Jacinto, “elas pertenciam ao universo pessoal e íntimo” dos seus progenitores.

Contudo, todas essas adversidades foram bastante importantes “para que o filme tivesse a forma que tem”. E da mesma forma que os problemas dos irmãos Vasconcelos eram resolvidos por Beatriz, também as suas reticências em relação ao filme se foram resolvendo quando o viram pela primeira vez, a 5 de Janeiro. Catarina não esconde o quão nervosa estava quando os levou até ao Cinema Ideal. Até tinha escrito “uma carta com quatro páginas”, para contextualizar aquilo que os seus tios iam ver. No final, todos acabaram por reagir com lágrimas nos olhos. José, um dos seus tios, chegou mesmo a afirmar: “não sei se as coisas aconteceram como tu dizes no filme, mas se calhar…”.

@ D.R.

As maiores complicações nas conversas sobre Beatriz vieram de Jacinto. Nascido em 1950, o pai de Catarina Vasconcelos não estava habituado “a falar sobre aquilo que sentia”. De um momento para o outro, o filhote mais velho vê-se obrigado a relembrar a sua mãe. Vê-se perante um filme que gira inteiramente à volta de emoções. Nas palavras da sua filha, “foi como se um trator lhe passasse por cima”. Tanto que só conseguiu disfrutar do filme quando o viu pela terceira vez, de “tão forte que era carga afetiva”. Talvez a comoção dos seus irmãos o tenham ajudado.

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