Tráfico humano e prostituição: Mulheres transexuais são as mais procuradas

Filipa Alvim, autora do estudo sobre a prostituição. @ D.R.

As mulheres transgénero têm sido cada vez mais procuradas no mercado da prostituição, refere um estudo da antropóloga Filipa Alvim, levando mesmo algumas profissionais do sexo a disfarçar a sua identidade sexual. Algumas prostitutas fazem-se passar por mulheres transexuais por razões económicas uma vez que o fetiche em volta da fisionomia das mulheres transgénero leva os clientes a oferecerem mais dinheiro por essas prostitutas, refere ainda o estudo.

Numa conferência realizada ontem (a 8 de novembro) no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, a também investigadora do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) revelou que os proxenetas tomaram conhecimento dessa potencialidade de negócio, em 2013, ano em que começaram a recrutar mulheres transgénero no Brasil. O local de eleição para o trabalho destas prostitutas é a Rua do Conde de Redondo, em Lisboa, onde a investigadora do CRIA realizou o seu trabalho de campo. A antropóloga afirmou que o local “é frequentado por diversas estrelas e celebridades portuguesas”.

@ D.R. / UALMedia

A investigação realizada por Filipa Alvim considera que o silenciamento do tráfico de mulheres tem a cumplicidade de outras vítimas que acabam por receber em suas casas as mulheres recém-chegadas. “Ao acolherem as recém-chegadas, as prostitutas incorrem em crime, o que as incentiva a não denunciar os traficantes”, afirma a antropóloga. Isso motiva muitas prostitutas a recusarem-se a fazer denúncias, mesmo após abandonarem o negócio do sexo.

Violações começam com as prostitutas

Um dos mecanismos de coerção utilizado sobre as mulheres é o valor da viagem e as despesas com alojamento que as vítimas de tráfico têm de pagar. Contudo, todas as mulheres entrevistadas por Filipa Alvim afirmaram que, após terem “pago esse valor”, deixaram a prostituição sem qualquer tipo de represálias. A investigadora do CRIA refere que a amizade desenvolvida entre os traficantes e as suas vítimas é um elemento dissuasor de denúncias destas redes de tráfico humano.

As prostitutas são as primeiras vítimas da violência sexual, sendo a elas que “os violadores recorrem antes de violar outras mulheres”, afirma Filipa Alvim. A investigadora do CRIA acrescenta que a polícia “ignora as acusações de violação” feitas pelas prostitutas, respondendo-lhes que “esse é o trabalho delas”, reação que a antropóloga atribui à “mentalidade moralista e conservadora” das autoridades portuguesas.

Notícia redigida para a unidade curricular de Géneros Jornalísticos no ano lectivo de 2019/2020.

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