Homens, políticos e jornalistas continuam a dominar o comentário.

A sociedade dos anos 80 era muito diferente da atual, mas “isso não produziu qualquer efeito no comentário político”, afirma Rita Figueiras, investigadora da Universidade Católica Portuguesa (UCP). A maioria dos comentadores continua a ser masculina e “composta por políticos e jornalistas”, acrescenta.

@ D. R.

Numa aula aberta subordinada ao tema “O comentário político em Portugal: o efeito Marcelo”, dada no dia 12 de abril na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a professora de ciências da comunicação referiu a “sub-representação das mulheres”. A disparidade é visível em todos os canais. “Apenas um terço dos comentadores são mulheres”, aponta.

Uma das razões para esta discrepância é o meio social onde os intervenientes são recrutados. A política é o local de origem da maioria dos comentadores. Apenas 16,7 por cento dos cargos governamentais e 35,2 por cento dos lugares na Assembleia da República são ocupados por mulheres, de acordo com um relatório de 2018 da Comissão Europeia sobre a igualdade entre homens e mulheres. Figueiras acrescenta o facto de “apenas 8 em 50 directores de órgãos de comunicação em Portugal serem mulheres”, apesar da presença dos dois géneros nas redacções estar praticamente equiparada. “Os cargos de poder são maioritariamente ocupados por homens e estes têm tendência a contratar pessoas do sexo masculino”, relembra.

Uma possível solução é o recrutamento de mais mulheres. “Parece pouco, mas não é” assegura a investigadora da UCP. “Além disso dar trabalho, há um receio em investir em caras novas e os media não querem fazer esse investimento”, acrescenta.

O predomínio dos políticos resulta da proximidade entre os poderes político e mediático. Figueiras descreve os espaços de comentário como “espaços de poder”, onde os políticos podem “construir uma determinada imagem de si” e “participar na definição das agendas políticas e das lutas partidárias”. Este é usado como uma ferramenta estratégica, “uma forma de se tornarem conhecidos, ganhando uma base de apoio e uma familiaridade com a população”, aponta. No entanto, a professora de ciências da comunicação revela que “o nosso mercado mediático é muito reduzido”, o que força os meios de comunicação “a ter uma boa relação com o Estado e com as instâncias de regulação e decisão. Isso é favorável para o exercício do negócio dos media”.

A forte presença dos jornalistas deve-se à “relação directa do comentário com o jornalismo”. Contudo, esta tendência para a “prevalência do comentário” decorre “dos problemas estruturais e económicos que o jornalismo também atravessa”. Nas palavras de Rita Figueiras, “há um vazio no espaço jornalístico e os comentadores vieram ocupá-lo”.

Notícia redigida para a unidade curricular de Produção Noticiosa no ano lectivo de 2018/2019.

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